MISSÃO DE CUMURA: Escola | Hospital

De lugar maldito a local de esperança

Era a Guiné Bissau ainda colónia portuguesa quando a leprosaria de Cumura foi inaugurada em 1952 com 261 doentes.

Havendo necessidade de providenciar assistência religiosa, e não encontrando disponibilidade nas ordens portuguesas, o Prefeito Apostólico chama os franciscanos de Veneza, ao saber que alguns dos seus frades missionários haviam sido expulsos da China comunista e do Tibete, onde trabalhavam na grande leprosaria de Mosimien. Em carta de de 25 de Janeiro de 1954 convida a Província franciscana de Veneza a mandar missionários para a leprosaria de Cumura e abrir uma Missão.

Em 6 de maio de 1955 chegam a Bissau os três primeiros missionários italianos: O Pe Settimio Ferrazzetta, sacerdote de trinta anos, Frei Giuseppe Andreatta de cinquenta e oito anos, enfermeiro que durante 22 anos trabalhara na leprosaria de Mosimien e Frei Epifanio Cardin de trinta anos, também enfermeiro e que durante três anos trabalhara em Mosimien.

O que os frades encontram é uma aldeia de 18 palhotas, de terra batida, sem água e sem luz, habitadas por 205 leprosos, desfigurados no rosto, corroídos na pele e na carne, mutilados nos membros, sem mãos, sem dedos, com os pés totalmente deformados, alguns com os braços e o corpo cheios de feridas nauseabundas. O Pe Ferrazzeta escreve:

Iniciámos a nossa actividade em Cumura numa pobreza difícil de imaginar. Havia poucos medicamentos e pouca alimentação, apenas o mínimo indispensável. Escavámos nós um poço para a água; havia um curso de água atrás do hospital que corria para um braço de mar mais em baixo e aí havia uma saída de água doce. O hospital era do Estado e nós ficámos nas mesmas condições – isto é, em barracas de palha, sem água canalizada e sem luz eléctrica – durante 14 anos, até 1969.

Dos 205 internados apenas 30 tinham leito de ferro e 50 um colchão. Os outros dormiam em leitos formados com paus plantados na terra e outros transversais, tendo em cima uma esteira tecida com vimes de folhas de palmeira entrelaçadas. Roupas quase todas rasgadas. nenhum deles tem sandálias dignas desse nome. A enorme maioria caminha com os pés nus, enfaixados num nastro de gaze e algodão, para impedir que o pó ou a lama entrassem nas feridas ou cavernas que a doença escavou sob a planta dos pés. No período das chuvas, de Maio a Outubro, a lama penetrava igualmente, apesar da protecção.

Cada manhã, quando os leprosos se dirigem à medicação, Frei Giuseppe e Frei Epifanio devem lavar repetidamente os pés antes de fazer os curativos. Na farmácia não há mobílias, apenas duas cadeiras.

O governo português contribui pagando a um cozinheiro e a dois empregados de limpeza e de segurança e, a partir de 28 de Agosto de 1957, também a gasolina do veículo dos missionários. O médico reside em Bissau, e raramente visita o hospital.